Caçula do B. Cearense se espelha em outro jovem craque e sonha com NBA

Aos 15 anos, João Gabriel estreou no NBB marcando o ídolo e convertendo cesta de três. Com o apoio incondicional da família e dos companheiros de equipe, sonha alto para o futuro promissor

Davi trouxe a bola, deu o passe no Padola (Juliano Armani), o Padola voltou a bola no Davi, que já tinha olhado para mim. Ele viu o Espeto dentro do garrafão, passou a bola, recebeu de volta e passou para mim. Na hora que eu recebi a bola, foi câmera lenta. Foi o momento em que eu sempre esperei na minha vida, o momento acontecendo na frente do ginásio todo. Eu só arremessei a bola, ela entrou, daí vi o Davi pulando, o Padola pulando…”

Caçula do B. Cearense se espelha em outro jovem craque e sonha com NBA

 

Indelével na memória do garoto João Gabriel está a descrição da primeira cesta do mancebo de apenas 15 anos em um jogo profissional do NBB. O segundo atleta mais novo na história da competição a converter um arremesso. O mais jovem a cravar uma cesta de três pontos. A história fica ainda mais incrível quando aos 12 anos, quando começou a descobrir o mundo da bola laranja, foi apelidado de Jordan – atente! – sem sequer saber de quem se tratava! Acredite se quiser.

Caçula do B. Cearense se espelha em outro jovem craque e sonha com NBA

João Gabriel poderia ser um adolescente como tantos outros, enamorado pelo futebol, sonhador de um futuro promissor no esporte que revelou Ronaldo, Romário, Neymar. E quase foi assim. Graças ao futsal apareceu a primeira proposta no futebol. Um teste no Botafogo do Rio de Janeiro. Viajar era necessário. Mas aos 12 anos, a pouca idade fez com que a mãe, Maria Tereza, achasse que não era a hora. Melhor para o basquete, que ganhou um aspirante a craque, sonhador, com vontades de títulos, recordes, seleção brasileira e até NBA, por que não?

Quando João começou a crescer demais para o futebol, o professor de educação física o convidou para o time basquete do colégio. Com um arremesso bom, logo ganhou destaque e percebeu que ali era o seu lugar. Na quadra próxima ao ginásio Paulo Sarasate, local de treinos do Basquete Cearense, jogava com os amigos (ou até mesmo sozinho) e ia beber água nos arredores do ginásio durante os treinos do Carcará. Atento, quase hipnotizado pela bola laranja, chamou a atenção de Alberto Bial, que o convidou para assistir aos treinos. Ali começava a história da vida de João Gabriel.

– Eu ia arremessar ali na quadra, no sol mesmo. Daí ia no Paulo Sarasate apenas para beber água. Mas um dia entrei para ver. O Bial me chamou para entrar e assistir ao treino. Bial pediu para eu fazer uns fundamentos, gostou e me convidou para que sempre que eu pudesse aparecesse nos treinos do adulto. Isso eu tinha 12 para 13 anos. Foi quando eu conheci o Basquete Cearense e nunca mais larguei – rememora.

O começo

Aos 12, virou “mascote” do time. Foi personagem de matéria do Globo Esporte local na vitória sobre a Liga Sorocabana, em meados de 2015. Com um uniforme dado pelo padrinho Bial, João Gabriel ajudou o time do jeito que conseguiu. E ficou feliz por isso. No colégio, começou a se destacar e as propostas para deixar o Ceará apareceram. Foi jogar pelo Minas, pelo Ginástico, destacou-se em competições e até fez viagem internacional. Mas a saudade apertou e o coração, deixado em solo cearense, chamou de volta. E o abraço da mãe se somou ao abraço do Basquete Cearense.

De asas abertas, o Carcará recebeu sua cria. Se foi apadrinhado por Alberto Bial, foi Dannyel Russo, auxiliar técnico do Basquete Cearense, que ensinou os primeiros passos de João Gabriel na quadra de basquete. Até apelidou de craque o jovem atleta recebeu. Mas Jordan? Quem era Jordan?

– Foi quando ele (Dannyel) me colocou o apelido de Jordan, lá no começo. Mas aí eu não sabia quem era. E fui pesquisar e descobri quem era o cara. Tanto que depois descobri quem era o LeBron James. Foram os dois primeiros jogadores de basquete da NBA que eu conheci – resgata.

Nem só a NBA vive de craques e ídolos na cabeça de João Gabriel. Se quando o Basquete Cearense nasceu, há seis temporadas, o futuro jogador sequer sabia da existência de um tal Jordan, aos poucos foi conhecendo outros craques. Davi Rossetto foi o primeiro nome.

– Ele (Davi) sempre foi receptivo, educado, um cara que tem o amor pelo jogo, sempre me dá dicas, desde o começo ele sempre foi uma peça importante para mim. Como outros jogadores, o Rashaun, o Felipe, outros que estão aqui há mais tempo – afirmou.

– O Bial sempre disse que meu um contra um era forte. E se eu aprimorasse, conseguiria chegar no Basquete Cearense. O Rashaun tem jogo forte de um contra um, sempre eu vejo ele nos treinos buscando fazer outras coisas, acho que a gente tem um estilo parecido – completou.

A estreia

– Quando o Bial me disse que eu ia jogar contra o Paulistano, eu dei um sorriso e meus olhos brilharam!

Havia um motivo. Ou melhor, dois. O primeiro, logicamente, era a estreia em um jogo profissional no NBB. Se antes João Gabriel achou que pudesse ser aos 17, 18 anos, aos 15 foi melhor que a encomenda! O segundo motivo era um outro craque que vestia a camisa adversária: o também jovem armador Yago Matheus, do Paulistano.

– No NBB, ele é meu principal ídolo. Ele é muito novo que nem eu. Na época, o Yago nem estava no profissional e já falavam dele no NBB. A estreia contra o Paulistano, foi um negócio que me tocou muito. Um ano antes, eu encontrei o Yago em Minas, quando eu jogava lá. No fim do jogo, eu disse a ele que era fã dele e que esperava jogar com ele um dia. “Trabalha duro que daqui uns três ou quatro anos a gente se encontra lá no NBB”, ele disse. E quando o Bial falou que eu ia jogar contra o Paulistano, eu dei um sorriso gigante!

Naquele dia, o Paulistano venceu por 81 a 60. Yago atuou por pouco mais de 24 minutos, anotando sete pontos e distribuindo cinco assistências. João Gabriel entrou no finalzinho da partida. Com a camisa 45, deu uma assistência e tentou dois arremessos da linha de três pontos. Converteu um. Aquele narrado por ele lá no início desse texto. A emoção, entretanto, ganhou mais força quando ele chegou em casa.

A força maior

Maria Tereza tem 69 anos e é mãe de João Gabriel. Mulher de fé e muito, muito amor pela família. No entanto, ainda não viu um jogo do filho de pertinho. João se preocupa com a saúde da mãe, hipertensa, e teme que a emoção de vê-lo jogar ao vivo possa causar problemas. Na estreia, quando chegou em casa foi que pode comemorar com a família.

– Foi engraçado que eu cheguei em casa, minha irmã estava pulando, minha mãe também, chorando. Elas não viram o jogo, mas a partir do momento que viram a estatística de que eu tinha feito a cesta – não aparece quem fez – ela disse que sentiu que tinha sido eu, ela já chorou, elas ficaram muito felizes – emociona-se.

Experimente falar da mãe em uma entrevista, ou numa conversa qualquer. Com uma história de superação, fé e perseverança, é natural não controlar a emoção. Não foi diferente com João Gabriel. A gratidão reverberava em cada palavra sobre a matriarca.

– Ela sempre me apoiou por isso. Ela acredita muito em Deus e fala que quando Deus dá uma coisa para uma pessoa, ela tem que usar para o bem. Ela sempre falou que desde pequeno eu sempre tive paixão pelo esporte, talento para isso. E se isso me fizesse chegar a um lugar mais alto, eu deveria usar isso para mim – declarou.

– Falar assim, pensar nela, sempre mexe muito comigo. Meu irmão, meu pai, acreditavam, mas nunca como a minha mãe. Ela sempre foi o ponto principal, várias vezes eu pensei em desistir. Falavam para eu estudar, que carreira de esporte é curta, mas minha mãe sempre falou para eu escutar meu coração, escutar a Deus que eu iria chegar aonde eu quisesse – concluiu.

Aos 15 anos, João Gabriel coleciona medalhas no basquete local e atualmente veste a camisa 45 do Basquete Cearense, representante do estado no NBB, elite do basquete brasileiro. Em dois jogos, fez quatro pontos. O que vem pela frente, entretanto, certamente não pode ser medido em números.